Do consultório saí guardando meus papeis em minha bolsa. Esbarro em uma pessoa no corredor que olha nos meus olhos. Uma mulher de vestido vermelho com pequenas bolinhas brancas. Ela me encara e dá um sorriso no qual retribuo de má vontade.Quando começo a caminhar, olho pra trás e vejo ela se sentando quase no mesmo lugar onde eu estava antes de ser chamada. Sua barriga estava grande, há uma possibilidade de ser gêmeos ali, porque é muito grande. Ou ela está ganhando.
Daqui a alguns meses sou eu assim, sou eu com esse barrigão, sou eu de corpo miúdo e bola de basquete em minha barriga, sou eu colocando o banco do motorista um pouco mais pra trás porque a barriga atrapalhará o girar do volante.
Evito pensar em mais coisas. Dobrei os papéis de exames que tinham em minhas mãos e guardei-os na pequena pasta. O fato de Bruno ter aparecido aqui, ainda me incomodava. Eu sabia que Annabelle estava encucada com toda essa história, mas não sabia como e nem o porque ela havia feito isso. Será que de uma certa forma ela pensou que isso iria resolver alguma coisa? Inocente, não resolveu, mas piorou. Como eu vou criar um filho cujo o pai eu odeio? Cujo o pai dele odeia a própria mãe dele. A questão é, como eu vou criar um filho?
Minha cabeça girava e girava e nada de respostas vinham. Eu estava com saudades do Finn, à essas horas eu poderia estar conversando com ele, falando que eu preciso de um abraço amigo e ele confortante, como sempre, iria me abraçar, beijar o topo de minha cabeça, e dizer que tudo iria ficar bem.
Não, nem tudo vai ficar bem!
Corro um pouco para atacar o ônibus que para na parada, mas ele não esperou-me e arrancou cantando pneu. Havia duas pessoas agora na parada em frente ao hospital. Definitivamente eu preciso desenhar e produzir para esfriar minha cabeça, preciso ter ideias para roupas.
Abaixo minha cabeça e penso no Finn - novamente. Ele não merecia passar por isso, se ele gosta de mim como realmente aparenta e fala, ele deve estar mal. Bom, eu sei como é ser largada por um namorado depois de um tempo apenas porque você não quis sair com ele e ficou em casa, lendo - sei que não foi só esse o principal motivo. Mas eu preferia os livros do que sair por aí.
Nem tinha visto que alguém atacara o ônibus. Uma senhora com base na idade da minha mãe estava entrando no ônibus quando eu apresso meu passo para seguir até a porta. Pago minha passagem e sento-me no banco onde há dois bancos a minha frente.
Pela janela daquele ônibus, durante algumas paradas que ele fizera, eu pude notar tantas coisas. Eu fico me martirizando, mas tem tantas pessoas com problemas maiores. Sei que o meu não é pequeno, pelo menos não para mim, mas tem tantas pessoas passando por dificuldades maiores, que acho que um filho nessas circunstâncias é até um sinal de benção. E se eu quisesse ter um bebê e não pudesse? Eu estaria sofrendo igual. Eu tenho que amar essa criança. Ou melhor, tenho que me acostumar e cair em si que ela é real e que daqui há um tempinho ela estará aqui, porque amar eu acho que já a amo.
Foi impagável a cara do Bruno hoje naquela sala. Se o assunto não fosse tão sério, seria cômico. Realmente ele não esperava que fosse ter um filho tão cedo, principalmente vindo de mim. Mas ele terá que se contentar. Eu tenho a mais plena certeza que esse filho é dele, ele querendo ou não. Ah, se fosse com o Finn seria diferente. Ele tem jeito de quem se dá bem com crianças, e minha filha poderia sair com seus olhos, seus cabelos, sua estatura e postura bonita, mas provável que ela terá cabelos castanhos escuro, olhos mel e bem amendoados, sua pele pode ser tanto cacau como a do Bruno quanto branca-papel, puxando a mim. Imaginar esse bebê é legal.
-Já estamos nos dando bem, princesa. - Falo para ela baixinho, encarando minha barriga mesmo que somente com o olhar de cima.
O ponto que teria de descer acabou passando, o próximo eu terei que andar um pouquinho, mas me fará bem, então levantei da cadeira sentindo um forte enjoo, me segurei para não cair no chão do ônibus e fui andando até a porta para sair. Desci as escadas e andei na direção contrária da minha casa. Em um dos apartamentos que ali tinha, pude ver aqueles varais suspensos com dois macacões, um rosa fraco e o outro verde água. Fiquei olhando como boba pra cima, até tropeçar e quase cair no chão. Ri de mim mesma e segui o caminho para casa.
Meu celular toca dentro da bolsa bem na hora em que abro a porta de casa. Deixo tocando enquanto fecho. Minha mãe não está por ali, não ouço música vindo do quarto da minha irmã, e meu pai não estava ali.
Talvez esteja sozinha em casa mesmo. Subo as escadas e quando largo minha bolsa sobre a cama, procuro meu celular. Há uma chamada perdida do Bruno, e logo chega uma mensagem. A abro quase de imediato.
"Espero que não tenha nada planejado para quarta pela manhã. Marquei o exame, será numa clinica particular. Mando o endereço mais tarde."
Passo o dedo sob a mensagem, deslizando ele de cima a baixo. Como ele pode ser tão grosso? Rio debochadamente dele achar que esse resultado possa ser negativo e largo o celular sobre a cama novamente. Eu preciso é de um banho e depois comer alguma coisa.
Pego um pijama antigo, e coloco ele em cima da minha toalha junto de minhas roupas intimas. Quando entro no banheiro, largo minhas roupas e me direciono para o box. Abro-o de modo que fiquei quente, mas nem tanto. Deixo a água correr um pouco, quando observo meu corpo no espelho. Eu estou mais magra, mas aquela pequena saliência em minha barriga é um pouco perceptível.
Não consigo me imaginar com a barriga muito grande, simplesmente porque não parece real. Minha cabeça tem um misto de sentimentos, e tem uma pequena chama acessa que ainda me diz "isso pode não ser real, apenas um sonho".
Assim que terminei meu banho, lembro-me do que iria fazer antes mesmo de entrar para ele. Peguei meu celular e disquei o número de Annabelle que estava nos favoritos. Chamou uma, duas, três vezes e na quarta ela finalmente atendeu.
-Você sabe que não tinha o direito. - Bufo sem ao menos deixar ela falar um "alô".
-Amb, meu anjo, eu precisava disso.
-Não precisava, eu tenho que tomar as decisões, eu sou a mãe dessa criança. - Falo um pouco mais baixo. - Belle, caramba, eu já tinha tantos problemas, tantos... agora só mais um.
-O que ele falou pra você?
-Com certeza não foi um "fica tranquila que eu irei ajudar em tudo". - Falo estridente e ela da uma risada nervosa.
-Eu fiz isso pensando no seu bem, e no bem da minha afilhada.
-Não, você pensou em você. Eu disse que iria pensar sobre isso, era só respeitar uma decisão minha. - Reviro os olhos. - Eu não sei o que fazer agora.
-Fica calma. - Pede ela.
-Como se isso fosse possível. Tudo está desmoronando. - De repente eu me sinto mal, mas não no sentido saudável, mas mal porque antes eu estava rindo, agora já quero chorar sobre tudo que está acontecendo. Respiro fundo para não deixar as lágrimas caírem.
-O que ele lhe falou?
-Ele disse. - Suspiro fundo. - Ele disse que eu não passo de uma fajuta, que transei com ele e agora estou dizendo que estou grávida somente para ganhar o seu dinheiro. - Respiro fundo novamente. - Eu sabia que ele teria essa reação, por isso queria me preparar primeiro.
-Amb, eu não sabia...
-Eu sinto que quando eu começar a chorar, eu não vou conseguir parar mais. Sabe o que é ter que fingir que está tudo bem aqui dentro de casa? Ter que fingir que eu sou normal.
-Você é normal. - Ela fala.
Rio debochada. - Posso ser, mas eu não estou normal.
-Eu estava pensando sobre seus pais. Semana que vem você pode falar pra eles, e se tiver realmente que sair de casa, eu vou ficar feliz se for lá pra minha. É pequena, mas sempre cabe mais um. Principalmente agora, estou me sentindo culpada. Desculpa por falar com o Bruno, eu não deveria ter feito isso sem perguntar antes, mas eu quero o seu bem, e o bem da minha afilhada. Por favor, me perdoa.
Eu já estava chorando, isso é óbvio. Como eu posso ser tão idiota?
-Tudo bem, eu te entendo.
-Não chora. - Dei um riso para disfarçar. - Não adianta disfarçar. Ouça sua amiga, tudo, absolutamente tudo, vai se encaixar, tudo vai ficar bem. Eu te amo mais do que possa imaginar, e eu estou aqui. Te sirvo de coluna quando não tiver onde se apoiar. Conta comigo.
Eu chorava, mas agora não é exatamente pelo mesmo motivo de antes, não é de tristeza, mas é de ver que eu tenho amigas de verdade, pessoas que eu posso confiar de olhos fechados, ver que eu não estou sozinha encarando essa, é bem melhor.
++++
Pela manhã de quarta feira, me arrumei com a roupa mais simples que tinha, e me juntei para tomar café com a minha família. Minha mãe estava estranhamente de bom humor, e minha irmã não tirava os olhos do seu celular. Não tive nenhum enjoo, apenas muita vontade de comer o bolo de laranja que ali estava. Comi uns quatro pedaços e ninguém estranhou, por não estarem prestando atenção.
-Vai sair? - Pergunta Violet.
-Sim. - Respondo limpando a boca no guardanapo.
-Pensei que pudesse me dar uma carona até a casa da Becky.
-Posso, mas tem que ser agora, tudo bem?
-Tudo sim, vou pegar minhas coisas.
Ela sobe as escadas correndo enquanto eu tiro nossos pratinhos e canecas da mesa. Minha mãe olhava para a televisão, aqueles programas de culinária, meu pai deveria estar por aí, mas em casa ele não estava. Peguei as chaves do carro e coloquei minha bolsa em meu ombro. Liguei para Belle e ela me atendeu rapidamente.
-Estava esperando minha ligação com o celular em mãos? - Pergunto e ela ri alto.
-Claro que não, mas eu tinha pego para guardar aí você ligou.
-Ah, ok. Então, você ou a Rye irão comigo?
-Acho que a Rye, não sei se sairei a tempo.
-O certo seria quem fez a burrada, não é? - Falo e ela ri sem graça.
-Isso foi uma boa ação.
-Um escambal. - Comento baixinho. - Vê com ela e me manda uma mensagem, estarei dirigindo e não poderei atender.
-Ok, beijos. Se cuide.
-Você também.


Ooo sem or tinha que parar bem ai Drizocaaaa? Mas tudo bem sou forte e aguento ate o proximo hahahah quero muito ver a cara de tacho do Bruno
ResponderExcluirPq vc smp para na melhor parte?! HAHA! Bruno é um imbecil, pqp! Adorei os pensamentos dela, me senti ali, traumatizada feito ela rs Muito bom, sis! ;)
ResponderExcluirNão sei se só eu percebi, ou se é coisa da minha cabeça, porém, toda vez q vc relaciona o bebê, fala de uma garotinha?????
ResponderExcluirSERÁ?!
DEUS ..
Enfim, maravilhoso como sempre. ;)
Ansiosa pra ver a reação do Bruno :3
ResponderExcluirvai ter a parte narrada pelo bruno também? continua driiiiiii ta muito boa
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